Exposição . 25 set – 30 out 2021

Performance de Xavier Paes . 30 out às 18h

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Galho _ folha de sala em pdf

Era já ali e já era outra coisa_ folha de sala em pdf

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Galho

Galho de Daniel Moreira e Rita Castro Neves, e Xavier Paes é a primeira apresentação pública do projeto e implanta-se na sala da Neblina, sonora e visualmente.

Naturalmente o nosso trabalho parte de uma vivência mais continuada com a região do que a/os outra/os artistas do projeto, no que pensamos constituir-se como uma interessante adição em contraponto. Partindo de várias caminhadas pela região, por percursos marcados e não marcados, a nossa participação transpõe para o espaço a experiência de andar e parar, de observar e conhecer. É também circular o percurso que propomos à volta de uma plataforma construída em madeira – mdf para sermos mais precisos, que se apresenta como um chão elevado onde se dispersam as obras.

Em contraponto a uma imagem idealizada, Xavier observa o lixo amontoado pelo território, e junto aos contentores nas estradas. Não é difícil a tarefa porque algo que caracteriza a vida no interior rural português, é precisamente a falta de cuidado nos serviços básicos: ausência de transportes públicos, eletricidade instável, má cobertura de internet, falta de saneamento, e, também, recolha do lixo insuficiente. Também nós temos isso tudo em Macieira. Com o tempo habituamo-nos a ver os contentores sempre cheios e à sua volta todo o tipo de lixo grande: colchões, móveis, eletrodomésticos, caixas de cartão, roupa, e televisores. É desfazendo televisores na serr, que Xavier encontra os seus altifalantes para a instalação sonora que nos apresenta, simultaneamente atividade de desconstrução estética e de reutilização ecológica. Amarrados em galhos e troncos também encontrados em Macieira, os altifalantes despidos da sua caixa, emitem a obra sonora que envolve o espaço, como ninhos de sons e memórias. Fieldrecordings com os característicos sons de pássaros e insetos audíveis em Macieira, são compostos e transpostos para uma fita magnética num loop de 1m25s. A fita percorre fisicamente o tronco em circularidade incansável, para entrar no leitor de cassetes, e a mecânica gasta do leitor acrescenta sonoridade à peça. O chamado walkman apoia-se sobre uma caveira de javali, também encontrada em Macieira, em encontro-memória de imagens, sonoras, visuais, de animais selvagens. Natureza e civilização encontram-se e tensionam-se, naquilo que é a mais comum das experiências do contemporâneo interior rural português. 

Junto aos troncos três galhos-ramos de flores amarelas, agora secas, cortadas junto à escola, rodam sobre pequenos motores adaptados, acrescentando natureza morta e circularidade à exposição.

Mas voltando ao espaço, o nosso gesto primeiro foi o de construir um chão em cima de um chão de cimento gasto, dialogando com o espaço que de antiga tabacaria, se transforma em estúdio de artistas, em que se mostram coisas, que se abre ao público.

Tudo começa por preparar uma exposição para um chão – um chão que preenche o espaço da Neblina. Construir um chão-plataforma: erguer um pouco. Interessa-nos especificamente o desafio de pensarmos os trabalhos em desenho, fotografia, som, performance, objetos e outras coisas, num chão. Processo de colaboração, e de encontros, entre nós e Xavier Paes, que se dispersa pelo chão, como um mapa de percursos dialogantes, para a construção de um lugar novo, uma ficção entre territórios, e entre pares.

Aqui se espalham uma sequência de desenhos, dois mapas dobrados – já não militares, mas agora de imagens fotográficas – pedras e animais. São junções de elementos encontrados, cascas de árvore, raízes de giesta, troncos, que se unem com simplicidade para criar outra coisa. Curvas de nível desenhadas por uma pedra evocam a circularidade de alguns percursos, e apontam para cima tal como alguns dos nossos bichos, encontrados e reconstruídos – paus animais a desafiar a gravidade, como quando as árvores, parecem desafiar o plano do chão

Também aqui colocadas as pedras apanhadas por Xavier Paes junto ao rio Paiva, lembram tímidas mariolas – esses marcos comunitários, sinais importantes para quem caminha. São instrumentos sonoros que irão ser ativados na performance que o artista fará para encerrar a exposição.

A ideia de planificação com que quisemos trabalhar o chão, remete para a história da perspetiva de índole renascentista, uma resposta (entre outras) para solucionar o como “planificar” a representação do mundo. Tornar plano, como o faz qualquer obra bidimensional, é um dos problemas de base da representação artística. Mas não só: é o problema de toda a representação.

Um chão torna-se um mapa: a simplificação de uma realidade complexa. Antes do cartógrafo flamengo Gerardus Mercator (séc XVI) os mapas eram sobretudo ecuménicos, representavam as pessoas, e a partir de Mercator tornam-se progressivamente mais territoriais. O nosso chão-mapa é um e outro, e algo entre os dois. O público que percorre e rodeia o chão também percorre um espaço, com o seu corpo. Há uma consciência de que o/a espectador/a cria uma relação de ver andando, e parando, e voltando atrás, como numa travessia, numa caminhada. Replica-se no espaço expositivo as experiências das caminhadas que os artistas tiveram que realizar in loco para concretizar esta obra in map.

E termina-se numa pedra, para subir para a plataforma seguinte, o patamar de entrada do espaço. É uma pedra-memória que evoca o território português, a poética mestria mural em granito, da pedra sobre pedra. E esta pedra se é um degrau, é um degrau com vida, a meio caminho entre o lugar da galeria e o caminho no exterior, in natura, com as suas plantas e musgo que temos que borrifar com água durante o tempo da montagem, e da exposição.

Mas sabemos bem que os mapas não descrevem apenas, como também criam. São por vezes os mapas que definem as fronteiras, criando-as – com o desenho.

O mapa pressupõe também uma ideia de escala, de simplificação e de escala.

A escala da obra no espaço da Neblina torna-se uma pequena parte das experiências, reflexões, pesquisas, que lhe estão na base. À/ao espectador/a apenas se dá a conhecer uma parte do projeto, não como um enigma, mas como um ponto de partida. Todo o conhecimento dos outros se acrescenta aos nossos. Um chão em construção conjunta. Nem poderia ser de outra forma… a este propósito recordamos aqui a conhecida história do escritor argentino Jorge Luis Borges Do rigor na ciência que ficciona sobre uma sociedade tão avançada no conhecimento cartográfico que produzia mapas à escala real, tornando-se – em consequência – inúteis.

Se a projeção cilíndrica do globo terreste (projeção de Mercator, 1590, realizada na sequência dos estudos do cartógrafo português Pedro Nunes) planifica a terra, nem por isso esta deixa de ser redonda. Mais ainda, é redonda e está em fluxo – como o trabalho artístico no chão faz adivinhar um vasto contexto de pesquisa, observações partilhadas, quilómetros percorridos, complexidades políticas e ecológicas.

É um chão E pur si muove

Daniel Moreira e Rita Castro Neves

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Fotos da Exposição | Photos of the Exhibition

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Fotos da Performance | Photos of the Performance

Performance de Xavier Paes para a exposição “Galho” no dia 30 de outubro de 2021 na Neblina no Porto.

Performance by Xavier Paes for the exhibition “Galho” (Branch) on the 30th October 2021, in Neblina, Porto.

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Performance by Xavier Paes (teaser). 30/10/ 2021. Video by Tânia Dinis

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Fotos da inauguração | Photos of the Opening

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Fotos/Photos@Daniel Moreira e Rita Castro Neves

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Era já ali e já era outra coisa tem o apoio do Programa Garantir Cultura da República Portuguesa.

It was just there and it was already something else is supported by the Portuguese State Program Garantir Cultura.